Uma análise sobre racismo e #SomosTodosMacacos

Banana-Bioplastic

Tudo começou com um ato inusitado. Aos 30 minutos do segundo tempo, Daniel Alves, jogador do Barcelona, estava para cobrar um escanteio quando percebeu que um torcedor atirou uma banana no campo. O lateral-direito brasileiro Daniel Alves caminhou até lá, pegou a fruta e comeu. A simplicidade do ato de comer a banana e continuar o jogo como se nada tivesse acontecido foi genial. Tirou a força da atitude preconceituosa do torcedor. É como aprendemos na época da escola, quanto mais nos incomodamos com os apelidos, mais forte eles se tornam. E, talvez,  quanto mais importância dermos aos idiotas que acham legal jogar uma banana no estádio, mais esse ato se repetirá. Por isso, o ato de Daniel Alves, foi genial. Em vez de se ofender, se retirar do campo, se mostrar constrangido, o que seria natural, ele minimizou a situação. Ridicularizou o ato. E ficou feio pro agressor, não para ele.

Essa atitude racista se tornou comum nos jogos de futebol. Apesar de ter ganhado força agora, atos como esse já aconteceram muitas vezes. Já aconteceu com o jogador Paulo César Tinga, com o árbitro Mario Chagas da Silva, com o jogador Arouca e com outros tantos jogadores negros, ou não europeus.

Mas depois da atitude de Daniel Alves, várias pessoas tomaram as dores do jogador e passaram a aderir a uma campanha na internet, criada por Neymar e uma agência de publicidade, #SomosTodosMacacos. Realmente, todos descendemos dos macacos. Mas essa campanha, além de fraca, mostra a superficialidade das pessoas perante aos atos de injustiça que vêm acontecendo. As redes sociais nos deram voz, mas o que estamos dizendo? #SomostodosClaudia #NãoVaiTerCopa #SomosTodos #EuNãoMereçoSerEstuprada #EuNãoMereçoSerAssassinada. Isso tudo quer dizer o quê, exatamente?

Muita gente se manifesta, está na moda ser bacana, e seus Facebooks, Twitters e Instagrams ficam lotados de fotos apoiando alguma vítima. Só que não é bem assim. Não somos Cláudia, mulher pobre e negra, que foi morta por policiais na favela em que morava, mal atendida e arrastada pela rua no percurso ao hospital. Não somos o Daniel Alves ou o Tinga, jogadores negros que receberam grandes ofensas racistas durante partidas de futebol. Não somos o DG, negro, que foi assassinado em uma favela ocupada pelas UPPs. Não somos a mulher estuprada que ficou com medo de denunciar seu estuprador por que talvez duvidassem dela. Não somos o menino gay que foi espancado e morto porque estava andando na rua. Nós somos diferentes. E temos que enxergar essa diferença. Ela existe por causa de privilégios que temos por sermos homens, brancos, escolarizados, ricos, livres, heterossexuais, magros, bonitos, sem deficiências físicas, empregados legalmente ou donos de um negócio, praticantes de uma religião permitida no país, de etnia que é a maioria do país em que vivemos.

Tudo fica pior quando celebridades tentam apoiar a causa, que não tem nada de causa. Usar uma hashtag não muda muita coisa (não adianta pintar uma unha de branco para acabar com a violência!). Nada disso atinge o principal: a consciência das pessoas. Por isso resolvi criar um post explicando o que é o racismo e por que essa campanha é falha e superficial.

 

Sobre o racismo

A foto acima é do pigmeu Ota Benga que ficou em exibição junto a macacos no Zoológico do Bronx, Nova York, em 1906. Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do quê os cientistas daquela época proclamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história do jovem Ota serviu para inflamar as crenças sobre a supremacia ariana defendida por Adolf Hitler. Sua história é contada no documentário “
A foto acima é do pigmeu Ota Benga que ficou em exibição junto a macacos no Zoológico do Bronx, Nova York, em 1906. Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do que os cientistas daquela época proclamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história do jovem Ota serviu para inflamar as crenças sobre a supremacia ariana defendida por Adolf Hitler. Sua história é contada no documentário The Human Zoo“

 

O que é raça? O que diferencia a raça da espécie? Na biologia, aprendemos que a raça nada mais é que uma variação de um ser da espécie. Ou seja, é uma subespécie. Para que a espécie exista ao longo de centenas de anos, ela precisa se multiplicar. E para que a população dessa espécie aumente, ela precisa que seus descendentes também se multipliquem. Que sejam férteis.

Mas quando um animal de uma espécie cruza com um animal de outra espécie, o filhote, chamado de híbrido, geralmente é estéril: ou seja, ele não terá descendentes. Um exemplo claro desse caso, é a mula.

É importante notar que os grupos que normalmente não se cruzam, apesar de viverem na mesma área geográfica, não são raças, mas sim espécies diferentes. Os verdadeiros híbridos de espécies diferentes, como por exemplo, da égua com o jumento, dão sempre descendentes estéreis, como o são, os machos e as mulas. O advento da síntese moderna e as técnicas moleculares para estudar o fluxo de genes levam alguns biólogos a rejeitar a noção de “raça” e até de “subespécies”.

Muita gente não sabe, mas a palavra mulato origina da palavra mula. Por que? Porque a mula, gerada após o cruzamento de uma égua com um jumento – animais de espécies diferentes -, é estéril. Seguindo essa lógica, o mulato, filho de brancos e negros, seria estéril também. Sabemos que não é verdade. Um mulato, pode sim, ter filhos. A cor da pele não nos impede de reproduzir, ou seja: não somos estéreis como a mula. Isso significa que só há uma espécie humana: a Homo sapiens sapiens. Por isso, conseguimos reproduzir.

O cachorro, por exemplo, é da espécie Canis lupus familiaris mas tem diversas raças. Isso porque ao longo dos séculos o ser humano realizou, por meio da domesticação, uma seleção artificial dos cães por suas aptidões, características físicas ou tipos de comportamentos. O resultado foi uma grande diversidade de raças caninas, as quais variam em pelagem e tamanho dentro de suas próprias raças, atualmente classificadas em diferentes grupos ou categorias.

Para ficar mais claro: dois animais de espécie diferentes, como um cão e um gato, podem cruzar? Sim. Mas o animal que nascerá não será fértil, logo, ele não terá filhotes. Aí está o limite, a definição de espécie e raça.

A palavra híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Joseph Gottlieb Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, tanto em plantas como em animais.

Ok. Então, os seres humanos são todos Homo sapiens sapiens. Vimos que a raça existe apenas para diferentes  de uma mesma espécie biológica de acordo com suas características genéticas ou fenotípicas. Como os cães, por exemplo. Existem raças de cães que são tão diferentes que não é possível um cruzamento de forma natural, como por exemplo Yorkshire e São Bernardo. Mas você conhece alguma etnia humana que não possa se misturar e gerar descendentes férteis? Não. Porque a espécie humana não tem raça. Somos diferentes, sim, mas não pertencemos a subespécies ou raças! Geneticamente, os seres humanos não são diferentes de acordo com a etnia. Somos iguais por dentro, ainda que sejamos diferentes por fora.

A antropologia, entre os séculos XVII e XX, usou igualmente várias classificações de grupos humanos no que é conhecido como “raças humanas” mas, desde que se utilizaram os métodos genéticos para estudar populações humanas, essas classificações e o próprio conceito de “raças humanas” deixaram de ser utilizados,2 , persistindo o uso do termo apenas na política, quando se pede “igualdade racial” ou na legislação quando se fala em “preconceito de raça”, como a lei nº 12.2883 , de 20 de julho de 2010, que instituiu, noBrasil, o “Estatuto da Igualdade Racial”. Um conceito alternativo e sinônimo é o de “etnia”. Do ponto de vista científico, como já demonstrou o Projeto Genoma, o conceito de raça não pode ser aplicado a seres humanos por não existirem genes raciais na nossa espécie; isso corrobora teses anteriores, que negavam a existência de isolamento genético dentre as populações. Assim, para a espécie humana “raça” corresponde a um conceito social, não a conceito científico. O termo “raça” ainda é aceito normalmente para designar as variedades de animais domésticos e animais de criação como o gado (nelore, gir e zebu).

Ou seja: isso significa que não existem raças diferentes de seres humanos. A palavra RAÇA carrega um significado político, mas não científico/biológico.  Logo, falar em raça não faz sentido algum para a espécie humana. O problema é que, de acordo com uma pesquisa do IBGE, divulgada em 22 de julho de 2011, a maioria dos brasileiros ainda acredita que a cor e a “raça” do indivíduo influenciam o trabalho e a vida cotidiana das pessoas.

O que é racismo?

O racismo é a tendência do pensamento, ou o modo de pensar, em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras, normalmente relacionando características físicas hereditárias a determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais. O racismo não é uma teoria científica, mas um conjunto de opiniões pré concebidas que valorizam as diferenças biológicas entre os seres humanos, atribuindo superioridade a alguns de acordo com a matriz racial.
A crença da existência de raças superiores e inferiores foi utilizada muitas vezes para justificar a escravidão, o domínio de determinados povos por outros, e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade e ao complexo de inferioridade, se sentindo, muitos povos, como inferiores aos europeus.

Primeira observação: se o racismo é um pensamento, o que precisa mudar? O pensamento das pessoas! Como? Com conhecimento, com conscientização, é claro.

Segunda observação: a característica física das pessoas não quer dizer NADA! Ninguém é mais inteligente por ser branco, negro, asiático. Nem mais culto. A inteligência e a cultura da pessoa tem a ver com fatores externos, não genéticos. Logo, não existe superioridade ou inferioridade de raças. Essa ideia é ultrapassada. Só servia para justificar o domínio de povos, a escravidão e os genocídios.

Como uma ideologia, o racismo existiu durante o século XIX como “racismo científico” (Racialismo), que tentava dar uma classificação racial para a humanidade. Embora tais ideologias racistas tenham sido amplamente desacreditadas após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, o racismo e a discriminação racial permaneceram difundidos em todo o mundo. Alguns exemplos disso no dia de hoje são as estatísticas, incluindo, mas não restritas a isso, a proporção de negros nas prisões em relação aos homens negros livres comparada a outras etnias, habilidades físicas e estatísticas sobre capacidade mental, e outros dados recolhidos por grupos científicos. Embora estas estatísticas estejam corretas e possam mostrar tendências, é inadequado na maioria dos países supor que porque certos grupos tenham uma criminalidade alta ou baixa taxa de alfabetização, que todo esse conjunto sejam automaticamente mais criminosos ou menos inteligentes.

Isso já foi notado por Dubois, que ao fazer a diferença entre as raças, não é sobre raça que pensamos, mas sobre cultura: “… uma história comum, leis e religião comuns, hábitos de pensamento semelhantes e um esforço consciente em conjunto para certos ideais de vida”. Nacionalistas do final do século XIX foram os primeiros a abraçar os discursos contemporâneos sobre “raça”, etnicidade e “sobrevivência do mais forte” para moldar novas doutrinas nacionalistas. Em última análise, a raça passou a representar não apenas os traços mais importantes do corpo humano, mas também foi considerada decisiva na moldagem do caráter e da personalidade da nação.

 

O que é etnia?

Etnia. Grupo social, pessoas que compartilham cultura, origens e história.

Um grupo étnico é um grupo de pessoas que se identificam umas com as outras, ou são identificadas como tal por terceiros, com base em semelhanças culturais ou biológicas, ou ambas, reais ou presumidas. Tal como os conceitos de raça e nação, o de etnicidade desenvolveu-se no contexto da expansão colonial europeia, quando o mercantilismo e o capitalismo promoviam movimentações globais de populações ao mesmo tempo que as fronteiras dos estados eram definidas mais clara e rigidamente. No século XIX, os estados modernos, em geral, procuravam legitimidade reclamando a representação de nações. No entanto, os estados-nação incluem sempre populações indígenas que foram excluídas do projecto de construção da nação, ou recrutam trabalhadores do exterior das suas fronteiras. Estas pessoas constituem tipicamente grupos étnicos. Consequentemente, os membros de grupos étnicos costumam conceber a sua identidade como algo que está fora da história do estado-nação – quer como alternativa histórica, quer em termos não-históricos, quer em termos de uma ligação a outro estado-nação. Esta identidade expressa-se muitas vezes através de “tradições” variadas que, embora sejam frequentemente invenções recentes, apelam a uma certa noção de passado. Lista de grupos étnicos do Brasil.

Sobre a Europa

Há muito tempo, estamos à frente de muitos países quando o assunto é miscigenação. Ao longo da história, muitos estudiosos diziam que o Brasil não ia durar nem 100 anos. Porque, como vimos acima, a mistura de raças torna o descendente estéril. Logo, a miscigenação nos tornaria estéreis. Ou seja: não teríamos herdeiros, a população não se multiplicaria e o país não cresceria. Hoje, sabemos que isso é mito. Somamos 200 milhões de brasileiros de origens completamente diferentes. Espanhóis, italianos, japoneses, coreanos, haitianos, alemães, ingleses, franceses, holandeses, chineses, e por aí vai. Se o Brasil ainda existe, essa é a prova de que a mistura de “raças” não é maléfica ao desenvolvimento da espécie  humana.

Além desse fator genético, podemos destacar a nossa beleza, única e muito destacada pela mídia internacional. Ela se deve a essa mistura. Também somos tolerantes. Não há tantas luta de territórios no Brasil (há luta por parte de povos indígenas, mas deixo para abordar esse assunto num outro post). Vivemos juntos, nossos bairros e cidades possuem pessoas de diversas origens. Não há separação, como em outro países.

Também não é tão natural do brasileiro ser xenofóbico. Quando um estrangeiro vem ao nosso país, ele é muito bem recebido. Muito bem tratado. Na Europa, a xenofobia não é nenhuma novidade. Mas isso também é cultural. Ao longo da história, a Europa foi palco de muitas disputas por territórios. A formação dos países, como conhecemos hoje, começou na Europa. Na época das grandes navegações, havia muita disputa por territórios. O objetivo era a expansão, a colonização de novos países, a exploração dos territórios do mundo. Mas hoje, já não é mais assim, embora essa cultura de não dividir o espaço continue existindo. E isso acontece até hoje! Em 2014, várias cidades ucranianas entraram em conflito com o país pois querem ser anexadas à Rússia.

É, infelizmente, comum que muitos jogadores estrangeiros sofram essa repressão por parte dos europeus. Lá, o estrangeiro nem sempre é bem visto. É como se um estranho estivesse ocupando o seu espaço, o seu bairro, a sua cidade, o seu país. E isso se reflete também no futebol, já que faz parte do mercado esportivo, que teve certa ascensão nos últimos anos e passou a negociar os jogadores para trazer dinheiro ao clube – mandando muitos jogadores brasileiros para a Europa.

Sobre a campanha – por que não devemos reforçar a associação de macacos a negros

10320540_870478459634376_2466614048255252434_nPara começo de conversa, nós não somos todos iguais. Esse é o primeiro passo para acabar com o racismo. Defender a igualdade é pura utopia. O ser humano é diferente, em tantos aspectos… O que devemos defender é o RESPEITO às diferenças. E não a generalização, que é uma das principais características do racismo.

Biologicamente, sim, todos descendemos dos macacos. Mas o xingamento nada tem a ver com a nossa evoluçãoMuita gente não compreende a magnitude e profundidade da utilização da figura do macaco como insulto aos negros, mesmo quando a utilização da figura daquele animal tem como objetivo fazer alguém rir. 

Ao utilizar o termo macaco para se referir à população negra, defende-se que há uma diferença evolutiva entre negros e brancos. Essa segregação racial foi usada em diversos momentos da história mundial para justificar genocídios, como o Apartheid. Para explicar, retiro um trecho deste artigo, muito, muito interessante:

“James Bradley, professor de História da Medicina/Ciência da Vida da University de Melbourne, na Austrália, em seu texto “The ape insult: a short history of a racist idea” (O Macaco Como Insulto: Uma curta história de uma idéia racista).

Para isso ele retorna ao século 18, momento no qual as teorias da evolução já estavam sendo propostas, e que as teorias de Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829) o tornaram o ancestral das teorias de Darwin. Bradley diz que para Lamarck, a evolução não se deu através da seleção natural no espírito darwiano, mas sim através de uma força vital que levou organismos a se tornarem mais complexos, funcionando em combinação com a influência do ambiente. Segundo Bradley, “nesta visão, os seres humanos não compartilhariam um ancestral em comum com os macacos”, eles seriam na verdade, “os diretos descendentes dos macacos”, e por consequência, os africanos “se tornaram o elo entre os macacos e os europeus”.

A teoria de Lamarck junto às várias outras teorias similares da época, foram vitais para a elaboração do racismo científico—também conhecido como pseudo-ciência, ou falsa ciência. Bradley novamente nos explica que ao fazer parecer que os “não-europeus seriam mais macacos do quê humanos, essas diferentes teorias foram usadas para justificar a escravidão nas Américas e o colonialismo no resto do mundo”. O autor acredita que todas aquelas diferentes teorias científicas e religiosas operaram na mesma direção”, ou seja, “reinforçar a direito europeu de controlar grande parte do mundo”. E esta foi a maneira que os europeus se diferenciaram não só biologicamente mas também “culturalmente”, mantendo sua superioridade sobre os outros povos.

Bradley por fim faz uma importante proposição: “Invocar a imagem do macaco é acessar o poder que levou a desapropriação das populações não-européias e outras heranças do colonialismo”. E interessantemente ao se referir ao contexto australiano, mas que tem uma repercussão também em várias outras partes do mundo.”

Devemos defender a democracia racial, por isso, para quem acha legal usar a hashtag #SomosTodosMacacos, indico a leitura deste artigo. Não devemos reforçar que somos macacos porque não somos. Não existe superioridade racial, essa ideia era defendida por Adolf Hitler nos anos 40. E apesar de ultrapassada, existe até hoje.

Superioridade é algo que ensinaram a você. É o que o sistema teima em afirmar através das leis existentes, dos privilégios que o judiciário confere, das bancadas de políticas excludentes patrocinadas por grandes corporações e fazendeiros. E aquele seu tal privilégio do qual falei antes pode agir aqui. Pode tornar ambientes corporativos mais justos e igualitários, educar crianças de maneira igual e sem distinções de gênero, denunciar um amigo que abusa de mulheres, andar com amigos gays e não se sentir especial por causa disso.

E mais opinião sobre isso tudo:

O racismo é algo muito sério. Vivemos no Brasil uma escalada assombrosa da violência racista. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de esportistas, artistas, formadores de opinião e governantes tem um objetivo certo: escamotear seu real significado do racismo que gera desde bananas em campo de futebol até o genocídio negro que continua em todo o mundo.

Eu adoro banana. Aqui em casa nunca falta. E acho os macacos bichos incríveis, inteligentes e fortes. Mas se é para associar a origens, por que não dizer que #SomosTodosNegros ? Porque não dizer #SomosTodosDeÁfrica ? Porque não lembrar que é de África que viemos, todos e de todas as cores? E que por isso o racismo, em todas as suas formas, é uma estupidez incompatível com a própria evolução humana?

 

Sobre a camiseta

10154889_10152135572092449_8700598844301754389_nAntes de mais nada: Comer bananas não quer dizer nada além do que comer bananas. E usar uma camiseta dizendo que #SomosTodosMacacos não te torna mais tolerante. Nem menos racista. O racismo está “escondido” dentro da gente. Em vez de gastar R$69,90 em uma camiseta que não o deixará menos racista, comece a policiar seus pensamentos e, principalmente, seus atos. Nada adianta vestir a camisa contra o racismo e ir ao centro de SP dizendo “odeio coreanos. Ô racinha desgraçada”. Ou dizer que os haitianos deveriam voltar ao seu país. Ou então agir diferente num supermercado porque o cara que está perto dos seus pertences é negro. TUDO ISSO é racismo! E não vamos confundir as coisas: dizer que AMA os negros, também é racismo!!!

Ora, como você pode amar todas as pessoas negras do mundo? Nós amamos ou não gostamos das pessoas pelo o que elas são POR DENTRO, pelos seus atos. Isso implica na personalidade dela, nas atitudes, e não na cor da pele, na religião a qual ela pertence ou qualquer outra característica que a faz pertencer a uma comunidade. Dizer que você ama os asiáticos também é racismo. Porque é impossível conhecer todos os asiáticos do mundo. Você pode, sim, não gostar de algum negro e isso não te torna racista. Mas o motivo pelo qual você não gosta dessa pessoa não pode estar associado ao simples fato de ser negro. As pessoas são todas pessoas. Não importa a etnia. O racismo nasce da generalização. “Não gosto de japoneses” ou “Amo os negros“. SÃO PESSOAS! Diferentes umas das outras. Não generalize! Você não pode gostar ou não gostar de alguém antes de conhecê-la. Isso não existe. Quando dizemos que gostamos, ou não gostamos, de um grupo de pessoas é racismo! E preconceito. Seu conceito sobre as pessoas é formado a partir da convivência. De várias experiências.

Sobre a camiseta, por mais bem intencionada que ela seja, ela não funciona. É jogada de marketing. O racismo acaba quando há a conscientização das pessoas. Quando elas entendem o que é, e passam a refletir. E não quando usam uma camiseta. Se acabar com o racismo fosse mesmo o objetivo – e isso soa tão utópico, não soa? – não teria sido criada uma simples camiseta, mas um vasto material de conscientização que gerasse reflexão e provocasse uma mudança no comportamento das pessoas. Seria uma campanha de verdade. Usar a hashtag #SomosTodosMacacos é tão superficial… Quer dizer o quê? Nada. Não quer dizer nada. Não exige esforço algum, nem reflexão nenhuma de nós. Estão usando só porque celebridades estão colocando essa hashtag em suas fotos bem produzidas. Mas o racismo continua acontecendo nos bancos, nas lanchonetes, nos cinemas, nos ônibus, nos bares, no metrô e em todos os lugares do mundo.

Temos muitos privilégios e querer “ser” a vítima está bastante aquém do que se pode fazer para minimizar esses crimes. A plaquinha feita no conforto dos seus lares é um jeito tímido de assumir que não se faz nada pelo outro. E parece ser suficiente para a maioria. Enquanto isso, você continua ganhando mais que seu colega de trabalho negro ou mulher. A polícia continua vitimando negros, simplesmente porque são negros. Homossexuais não têm os mesmos direitos você tem. E mulheres também não. Você anda no ônibus com medo de te roubarem o celular, mas não passa pela sua cabeça que você pode ser estuprado e morto no caminho para casa. Você entrou em uma boa faculdade, fez intercâmbio e pode trabalhar no que gosta, porque seus pais tiveram dinheiro para garantir sua educação. Aliás, você vive em um país livre e não teve que pedir asilo e se sujeitar a trabalho escravo. Você vive na cidade e tem acesso a médicos e hospitais particulares, sem depender da ajuda do exército, de médicos que não querem trabalhar no interior ou da saúde humanitária de ONGs. Você anda na rua de mãos dadas com quem você ama, e não é questionado sobre porque o nome do RG é de homem, se você é uma mulher.

Acabar com o preconceito e com o racismo é muito mais complicado do que contratar um designer para fazer uma estampa bacana para uma camiseta…

Por isso a hashtag, seja ela generosa com quem for, me incomoda muito. O que a gente menos precisa nestes casos é de frases de efeito. De unha branca pintada pela paz. A gente precisa de prática mas, antes dela, de consciência humana ou humanista. Olhe em volta, não vão faltar ocasiões para você provar, na prática, que não é racista e nem nenhum outro “_ista” do mal. Sem hashtag e na vida real (que é onde as pessoas morrem e se machucam de verdade).

E sobre o que fazer com esses torcedores? Por mais que eu concorde que banir não é a solução, acho que, sim, devemos impedir pessoas que não sabem se comportar em estádios de o frequentá-los. Porque ao jogar uma banana em um jogo importante, ele está reforçando AINDA MAIS o racismo. Mas por que tanto Tinga como Daniel acreditam que essas medidas funcionam? Porque elas se limitam ao futebol. E o racismo está presente o tempo todo, em todos os países, em todos os lugares. Onde podemos lutar contra o racismo? Na minha opinião, nas escolas, desde cedo. Tem até um estudo bem interessante sobre isso. Vale a leitura!

Termino este artigo com a frase de James Bradley,  professor de História da Medicina/Ciência da Vida da University de Melbourne, na Austrália, em seu texto “The ape insult: a short history of a racist idea” (O Macaco Como Insulto: Uma curta história de uma ideia racista):

“Claramente, o sistema educacional não faz o suficiente para nos educar sobre a ciência ou a história do homem. Porque se o fizesse, nós veríamos o desaparecimento do uso do macaco como insulto”.

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Mari tem 24 anos, mora em São Paulo e é jornalista – mas às vezes pega uns freelas de design. É pisciana, palmeirense e apaixonada por comida japonesa. Adora gatos, The Sims e Milkshake, não necessariamente nessa ordem.